A fundação: São Pedro, o primeiro papa
Segundo a tradição católica, a história dos papas começa com São Pedro, um dos doze apóstolos de Cristo. Jesus confiou-lhe a missão de «apascentar as suas ovelhas» (João 21, 15-17) e declarou: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (Mateus 16, 18). Pedro tornou-se assim o primeiro bispo de Roma e o chefe visível da Igreja. Morreu mártir por volta do ano 64 d.C. em Roma, crucificado de cabeça para baixo no Monte Vaticano. O seu túmulo encontra-se sob a Basílica de São Pedro.
Os papas dos primeiros séculos (séculos I a IV): de mártires a defensores da fé
Depois de Pedro, os primeiros papas, como Lino, Clemente I, Sisto I e Pio I (falecido por volta de 155), continuaram a sua obra num contexto de perseguição. Muitos morreram como mártires pela sua fé. Eles garantiram a transmissão fiel do Evangelho e a unidade da Igreja face às primeiras heresias.
Entre eles, São Clemente I (papa de 88 a 97), autor de uma importante carta à Igreja de Corinto, encarnava uma autoridade já reconhecida por Roma. São Vítor I (cerca de 189-199) foi o primeiro papa africano e tentou unificar a data da Páscoa.
Com o imperador Constantino e o Édito de Milão (313), o cristianismo tornou-se uma religião tolerada e, posteriormente, favorecida. O papa Silvestre I (314-335) encontrou-se então no centro de uma viragem histórica, embora ele próprio não tenha participado no Concílio de Nicéia (325), que definiu a divindade de Cristo face ao arianismo.
A Era dos Grandes Doutores e a Queda de Roma (séculos V-VIII)
O Papa Leão I, conhecido como Leão, o Grande (440-461), marcou fortemente este período. Afirmou a primazia do Bispo de Roma sobre as outras Igrejas, defendeu a fé católica contra as heresias e encontrou-se com Átila para dissuadi-lo de atacar Roma.
O Papa Gregório I, conhecido como Gregório, o Grande (590-604), foi outro gigante espiritual. Antigo prefeito de Roma que se tornou monge, reformou a liturgia (canto gregoriano), organizou missões (nomeadamente em Inglaterra com Santo Agostinho de Cantuária) e proclamou-se «servo dos servos de Deus».
Num Ocidente em plena decadência política, os papas tornaram-se também figuras de estabilidade. Por vezes, entraram em conflito com o Império Bizantino, especialmente em torno do monotelismo, até que o papado se emancipou da influência imperial.
A Idade Média e a afirmação do poder papal (séculos IX-XIII)
A era carolíngia assistiu a uma aliança crescente entre o papado e os reis francos. Em 800, o Papa Leão III coroou Carlos Magno imperador, estabelecendo o Sacro Império Romano-Germânico.
Mas o século X, frequentemente referido como a «Idade do Ferro», viu os papas sujeitos à influência de poderosas famílias romanas. A reforma gregoriana, liderada pelo Papa Gregório VII (1073-1085), reafirmou a independência da Igreja e o celibato dos sacerdotes. Ele opôs-se ferozmente ao Imperador Henrique IV na Contenda das Investiduras.
O Papa Urbano II (1088-1099) pregou a Primeira Cruzada no Concílio de Clermont, em 1095. Os papas subsequentes desempenharam um papel central na cristandade medieval, por vezes mais espiritual (Inocêncio III, 1198-1216, que convocou o Quarto Concílio de Latrão), por vezes muito político (Bonifácio VIII, 1294-1303).
A crise da Igreja: Avignon e o Grande Cisma (séculos XIV-XV)
De 1309 a 1377, os papas residiram em Avignon, França, sob a influência dos reis franceses. Este foi o «cativeiro babilónico» do papado. O regresso de Gregório XI a Roma em 1377 não pôs fim à crise, uma vez que a eleição de dois, e depois três papas rivais, causou um cisma que dividiu a cristandade.
O Concílio de Constança (1414-1418) pôs fim ao cisma ao eleger Martinho V como o único papa legítimo.
Renascimento e reformas (séculos XV-XVI)
Os papas renascentistas, como Nicolau V, Júlio II e Leão X, eram frequentemente grandes patronos das artes, apoiando as artes e a construção da Basílica de São Pedro. Mas também foram criticados pelo seu estilo de vida mundano.
Lutero publicou as suas 95 teses em 1517. O Papa Leão X condenou a Reforma Protestante, mas demasiado tarde. O Concílio de Trento (1545-1563), sob Paulo III, Júlio III e Pio IV, reformou profundamente a Igreja: formação dos sacerdotes, liturgia, catecismo, etc.
São Pio V (1566-1572) aplicou rigorosamente estas reformas e instituiu a festa de Nossa Senhora do Rosário após a vitória de Lepanto (1571).
A Igreja nos tempos modernos (séculos XVII-XIX)
Num mundo cada vez mais secular, os papas tiveram de afirmar a sua autoridade espiritual, ao mesmo tempo que perdiam o seu poder temporal. Pio VI e Pio VII enfrentaram a Revolução Francesa e Napoleão. Este último chegou mesmo a mandar prender o Papa.
Em 1870, o Concílio Vaticano I (sob Pio IX) definiu o dogma da infalibilidade papal. Nesse mesmo ano, Roma foi anexada ao Reino de Itália e o Papa perdeu os Estados Pontifícios.
Leão XIII (1878-1903) foi um grande intelectual e escreveu a encíclica Rerum Novarum, fundando a doutrina social da Igreja.
O século XX: crises, concílios e abertura ao mundo
Pio XI e Pio XII enfrentaram o totalitarismo. Pio XII (1939-1958), Papa durante a Segunda Guerra Mundial, continua a ser uma figura controversa devido ao seu aparente silêncio sobre o Holocausto, embora estudos destaquem as suas ações discretas.
João XXIII (1958-1963) convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965), um importante ponto de viragem: reforma da liturgia, abertura ao diálogo ecuménico, ênfase na Igreja como «povo de Deus».
Paulo VI, João Paulo I (33 dias como pontífice) e, sobretudo, João Paulo II (1978-2005) deram continuidade a este trabalho. João Paulo II, o primeiro papa não italiano em séculos, deixou a sua marca na história através da sua luta contra o comunismo, das suas extensas viagens e da sua profunda espiritualidade.
O século XXI: continuidade e desafios contemporâneos
Bento XVI (2005-2013), um teólogo alemão, renunciou ao pontificado em 2013, um acontecimento inédito desde a Idade Média. Francisco, eleito em 2013, tornou-se o primeiro papa jesuíta, o primeiro da América Latina, e escolheu o nome do «pobre de Assis».
O seu pontificado foi marcado pelo desejo de reformar a Cúria, pela atenção aos pobres e ao ambiente (encíclica Laudato si') e pelos esforços em prol da sinodalidade, ou seja, de uma Igreja mais em sintonia com o povo de Deus.
A história dos papas é um afresco vivo, com dois mil anos de duração, que mistura grandeza espiritual, conflitos humanos, reformas e fidelidade. Cada papa, com os seus pontos fortes e limitações, é o portador da missão confiada a Pedro: guardar a unidade da fé e conduzir a Igreja a Cristo. Para além das controvérsias, o papado continua a ser um pilar central da Igreja Católica, o garante da sua memória, da sua fé e da sua esperança na história.